O casamento depois dos filhos

Eram quase 23h. Sentamos os dois no sofá e nos olhamos por algum tempo. Imaginei o que estaria passando pela cabeça daquele homem que há algum tempo eu dividia a vida. Muita coisa tinha mudado desde a época que nos conhecemos. O olhar estava visivelmente cansado e me peguei pensando o que estaríamos fazendo, naquele momento, se não tivéssemos tido o dia que tivemos.

Desde a chegada da nossa filha mais velha vivemos tanta coisa em tão pouco tempo, nem de longe a nossa vida parecia a mesma. Era como se tivéssemos entrado em um trem que nos levou a um lugar totalmente desconhecido e cheio de surpresas.

Tiveram momentos que acreditamos que o amor havia acabado, outros que julgamos de fato que estávamos vivendo com um estranho e aqueles momentos que até chegamos a nos perguntar onde foi que nos perdemos.

Na verdade tínhamos toda razão. Já não éramos mais os mesmos. E o fato do nosso casamento nunca mais ser o mesmo não é necessariamente uma coisa ruim.

Literalmente a vida era outra agora.

Antes, quando éramos uma dupla, só nós dois. Não haviam fraldas sujas, noites intermináveis, choro daqui, colo dali. Não havíamos que começar a nos arrumar 2 horas antes de sair, nem que voltar várias vezes em casa porque esquecemos alguma coisa.

O cansaço não estava tão acumulado, não brigávamos porque um pegou o copo errado e isso desencadeou uma acesso de choro da caçula. Não havia rotina do sono que duram 4 horas.

Sem dúvida nossa relacionamento era diferente. Mas assim como tanta coisa em nossas vidas, nosso relacionamento jamais voltará a ser como era antes. E muito menos nós!

Sempre vemos tantos casais com um certo pesar sobre isso, mas faz parte da evolução, assim como morar junto jamais será igual namorar. Cada fase tem seus encantos e desencantos. Bate a saudade, eu sei, a única coisa que não podemos é criar uma expectativa de que um dia as coisas voltarão a ser como antes e deixarmos de viver esse e caramba, que presente.

Ter filhos é transformador, é uma mudança de vida, de paradigmas, é um caminho de autoconhecimento sem volta. E quando entramos na estrada, quem está do nosso lado também vive suas experiências pessoais que reflete na vida do casal.

Enfrentamos desafios e são neles que, dentre todos os sentimentos, o companheirismo aflora. Na hora da fraqueza, da dúvida e do sufoco, é que fortalecemos os laços, cultivamos a empatia. A admiração aumenta, traz qualidades que podem ter passadas despercebidas. E o amor? Vemos que ele pode ser muito mais do que imaginamos. É nesse momento que reconhecemos, descobrimos e lembramos o porquê de estarmos juntos.

Lembrar disso, deixam as coisas mais leves, porque criar filhos têm perrengues, mas a gente se diverte demais. Envolvem tantas coisas, momentos únicos que passam antes que possamos perceber que eles não irão voltar.

Uma hora, não muito longe, as crianças crescem, logo seremos nós dois com mais tempo novamente. Olharemos para traz e veremos que “de tanto não parar a gente chegou lá, do outro lado da montanha onde tudo começou” e que voltamos mais fortes, mais unidos e mais certos das nossas escolhas.

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