Para refletir

Quebre a perna, um desejo de boa sorte?

Lembro-me bem de que, algum momento da minha adolescência eu fiz aulas de teatro. Eu amava. No teatro a gente se liberta de tanta coisa, é algo muito único, surreal e extremamente terapêutico.

Ali em cima do palco, seja nos ensaios ou nos espetáculos, deixamos nossos problemas e damos a chance para um novo eu, um personagem o qual assumimos as dores e os amores, as nossas ficam de lado.

Mas não é assim tão fácil, para uma peça ficar pronta e realmente cumprir sua missão, tudo é um processo. E este processo não é fácil para o ator. Ele vai ter que estudar, se dedicar, vai errar, aprender com os erros, vai ser orientado, vai tentar fazer de novo, mas principalmente vai ter que se abrir para o personagem, vai ter que deixar muita coisa ir para que novas possam chegar, ele precisa se abrir para a experiência, por mais difícil que ela seja.

E quando a gente está prestes a mostrar ao público o resultado de tanto esforço (externo e interno), vai vir um amigo seu e dizer: vai lá, quebre a perna!

Sim, quebre a perna é um desejo de boa sorte no teatro.

A origem dessa mensagem é meio nebulosa. Logicamente ela não nasceu aqui. Alguns dizem que (e é a versão que eu prefiro acreditar) que se deve ao desejo de que os aplausos do público sejam tantos e tão fervorosos que as “pernas” do teatro (parte lateral onde ficam as cortinas) se rompam e levem o teatro abaixo, não literalmente, claro! Apenas a parte dos aplausos fervorosos.

E no exato momento em que escrevo este texto estou rindo sozinha! Sabe porque? Porque eu estou com a perna quebrada (literalmente falando). Entre dores, remédios, cirurgias e um medo gigantesco que se assola me mim agora, fiquei pensando na mensagem de boa sorte que recebia no teatro.

Não é legal, de jeito nenhum quebrar a perna, de verdade. Não que, em algum momento da minha vida eu tenha pensado isso, ok? Mas, aqui no meio de toda essa experiência e esses sentimentos estranhos e nem um pouco amistosos, fiquei pensando se lá no fundo não possa ser uma espécie de bom presságio?

Experiências como essa, e como a síndrome de pânico que eu tive há dois anos são uma espécie de tratamento de choque. A gente leva um grande susto, tem todo um esforço, a gente sofre e não é legal de jeito nenhum, e olha, que a gente sai diferente e aprende muita coisa, mas só se estivermos dispostos a deixar muita coisa ir para que novas possam entrar, assim como no teatro. Precisamos deixar espaço para esse esse novo. E isso envolve despedidas, e convenhamos, despedidas não são isentas de dor.

E olha, concordo plenamente que ninguém precisasse passar por qualquer coisa desse tipo para aprender algo, mas convenhamos, elas funcionam!

E em todo o processo, assim como na preparação de um novo personagem, a gente tem um caminho: tem que aceitar o que aconteceu com a gente, tem que lidar com feridas (que às vezes são bem antigas, mas a pancada faz elas reabrirem), tem que lidar com a raiva, porque sim, há muita raiva, tem que lidar com os medos, as inseguranças e tem que desapegar, deixar ir…

E quando a gente deixa tudo isso ir, adquirimos a capacidade de aprender o que cada uma dessas experiências tem a nos ensinar.

Minha esperança é que nunca voltei para a coxia a mesma pessoa que subia ao palco, quando as coisas davam certo, mas principalmente quando davam errado. Era nas dificuldades, no improviso que a gente sempre tirava as maiores lições e dávamos o nosso maior salto de aprendizado.

Assim como a crise de pânico que tive há dois anos, que eu digo que foi uma das piores e melhores coisas que me aconteceu, porque me fez acordar para muita coisa na vida e caramba, hoje que eu vejo de fora, consigo ser muito grata por cada uma delas.

Quebrar a perna também não está sendo das experiências mais gostosas não, mas hoje, mais tranquila e consciente, tentando aprender tudo, mas tudo mesmo que ela pode me ensinar, principalmente a olhar os sinais sutis que a vida manda e que na grande correria a gente nem se dá conta e quem sabe um dia eu consiga realmente vê-la como uma espécie de desejo de boa sorte e consiga ser grata por cada uma das coisas que essa experiência me fez enxergar, antes que fosse tarde demais.

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