Vida e Cotidiano

Aquela coisa que só as avós têm

Por algum tempo na minha recente fase adulta, me hospedei algumas semanas na casa da minha avó paterna. Era um momento bem diferente dos outros que eu me hospedara lá. Geralmente na infância, eu ia sempre de viagem com meus pais ou para passar alguns dias com meus primos, nos breves momentos que moramos na mesma cidade.

Dessa vez, eu tinha tomado a decisão de ir embora para começar uma vida, trabalhar, estudar, longe dos meus pais, no auge dos meus 19 anos. Decisão que hoje em dia, não acredito ter sido acertada, mas sou grata por ela, me ajudou muito a construir o que sou agora, mas, vamos deixar isso para um outro post.

A casa da minha vó era simples e nunca mudou nada desde que eu entendia por gente, até eu voltar lá várias vezes depois de adulta.

Quando criança, eu amava dormir lá para sentir o cheiro gostoso da roupa de cama, tinham cheiro de afeto, cheiro de “voltar pra casa”, mesmo que eu quase não fosse pra lá por morar em outras cidades.

Quando voltei lá nessa época, uma tarde, voltei do trabalho e tinha pão de queijo com chá de erva-cidreira me esperando. Bastou uma tarde e uma elogio sincero àquele chá para que, as próximas tardes todas ela me esperasse com um pouco dele.

Minha avó, que adorava cuidar da casa, sentava ali e conversávamos por algumas horas. Contava suas valiosas histórias e dava os mais valiosos conselhos que eu poderia receber na vida.

Eu podia ter tido muitos momentos com ela na minha infância, mas, aqueles dias na casa da minha vó, me fez e conhecer uma pessoa totalmente diferente.

Agora já adulta e entendendo um pouco mais sobre como funcionava a vida, eu conseguia sentir toda o amor que emanava dela. Podia sentir cada palavra e cada energia que elas carregavam. Podia sentir e reviver toda uma história de vida que faz parte da minha história e que ia fazer parte da história das minhas filhas.

A cada gole de chá de erva-cidreira eu absorvia tanto carinho da minha vó, era como se eu absorvesse ali todas as orações, todos os cuidados, cada almoço que ela preparou ao longo da minha vida, cada vez que ela nos dava boa noite quando dormíamos na sala dela, todas as vezes que ela torceu e intercedeu por nós, todo o amor e o cuidado de quem, amou os filhos, e que ama infinitamente os netos, do jeito dela e com toda certeza, do melhor jeito do mundo.

Alguns anos depois, mesmo voltando lá com certa frequência, nunca mais tomamos chá daquela maneira. Entendi que era um presente da vida pra mim. Aquelas tardes, que de um modo nem existiram, eram um jeito de Deus deixar a presença da minha vó marcada em mim de um jeito novo e eterno.

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Depois de morar 18 anos com minha avó materna, ela começou a morar com uma tia. Todas as vezes em que fui visitá-la ela me perguntava se eu lembrava da música que ela cantava pra eu dormir enquanto criança.

Eu achava engraçado ela repetir isso, já que todas as vezes eu respondia e cantava a música que me embalou tantas e tantas vezes. Na última vez que eu a vi com vida, ela tornou a fazer a pergunta mais uma vez e assim que respondi, começou a cantar para fazer minha filha caçula em seu colo dormir.

Entendi que não era uma pergunta, era um código. Um código secreto entre eu e ela para identificar um momento só nosso, para identificar uma conexão profunda e imutável.

Não importa quantos anos se passasse, eu seria pra sempre a mesma criança pra ela, que ela fazia dormir, que cuidava de um jeito de vó, com quem ela brigava, chamava a atenção nas pequenas coisas, mas também chamava para coisas importantes da vida.

Era uma maneira dela dizer que estaria sempre comigo, que eu estaria sempre nas orações e nos pensamentos dela. Que mesmo que passasse o tempo, as coisas mudassem, o amor e o carinho dela estariam presentes aqui dentro e que se um dia eu não acreditasse em mim, era só lembrar o quanto ela acreditava e quanta força ela passava com o olhar.

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Estar com elas me dava uma maravilhosa sensação de pertencimento. Era acolhedor, era gostoso! Não é a mesma coisa de se estar com uma mãe ou com uma irmã ou com uma amiga.

É uma conexão forte com o seu passado e com o seu futuro. Vós torcem, rezam, choram por nós! Vós curam com seus abraços, rezas e orações. Acolhem quando o mundo parece estar contra. Quando não vê saída!

Vó é um misto disso tudo e um pouco, de alguma coisa, que só as avós têm.

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